terça-feira, 14 de outubro de 2014

Vínculos débeis no mercado das emoções


Revolució, Oil on Canvas. Por Guilherme Kramer.



Em meados do século XVIII, na Inglaterra, emergiram-se diversas transformações de ordem econômica, política e social, que se convencionou chamar de Revolução Industrial. No Brasil, o processo de industrialização teve seu ponto de partida por volta da década de 80 do século passado, essencialmente motivado pela crise e abolição do trabalho escravo. Formou-se, com o trabalho livre assalariado, um mercado passivo que era preciso abastecer.

Este processo gerou não somente um novo modelo econômico, mas também uma nova forma de olhar o mundo. A insaciabilidade é uma das características da sociedade de consumo que mais gerou impacto, atingindo, inclusive, as relações sociais e o processo de constituição da própria identidade. 

Os relacionamentos atuais estão cada vez mais fragilizados e comumente tratados como mercadoria. Pode-se notar o estabelecimento de uma nova ética onde os conceitos mais nobres foram ressignificados. A debilidade dos vínculos afetivos pode ser diretamente comparada à relação que temos com os objetos. Os produtos não são mais feitos para durar, da mesma forma as relações.


Sobre este tema, recomendo a leitura do livro AMOR LÍQUIDO, de Zygmunt Bauman.


Toda essa análise me despertou o interesse de investigar elementos um pouco mais profundos do processo de estabelecimento do vínculo. A identificação é a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa, além de desempenhar um papel importante na história primitiva do complexo de Édipo - “Um menino mostrará um interesse especial pelo pai; gostaria de crescer como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente dizer que toma o pai como seu ideal.” (FREUD, 1921, p.133). Posterior a esta identificação, Freud diz a respeito da idealização que se dá na presença do amor, que tende a falsificar o julgamento a respeito do outro, visto que, quando estamos amando, há uma quantidade considerável de libido narcisista. Ou seja, a forma como se trata o outro, revela diretamente a relação que se tem consigo mesmo. 

A fragilidade das relações revela, dentre muitas coisas, a vulnerabilidade dos seres humanos no processo do autoconceito, e este é fundamental para manter o ajuste do sujeito com o mundo exterior. Na abordagem humanista, por meio da interação social o indivíduo repele imagens de si mesmo, inclusive as que lhe causam dúvidas em relação à sua própria competência e seu próprio valor. Partindo deste pressuposto, o investimento de tempo e afeto numa relação pode associar-se ao desejo de estar consigo mesmo ou, da mesma forma, o contrário, a aversão da própria companhia. Se eu me vejo no outro, o saber “quem sou” me permite definir “com quem quero estar”, sendo assim, a busca insaciável pelo alguém ideal pode ocultar a insatisfação de não ser o alguém ideal, e esta nos obriga a dar voltas que não conduzem a outro lugar que não ao ponto de partida.

(Douglas Duarte)