Estes dias li uma
matéria cujo título me chamou muita atenção: a frustração profissional adoece.
A matéria falava a respeito da Síndrome de Burnout, que é um distúrbio psíquico
descrito em 1974 por Freudenberger, um médico americano.
A síndrome é
caracterizada pelo estado de tensão emocional e estresse, crônicos e
provocados por condições de trabalho físicas, emocionais e psicológicas
desgastantes. Ela se manifesta, comumente, em pessoas cuja profissão exige
envolvimento direto e intenso de questões interpessoais, como é o caso de
profissionais da saúde, educação, recursos humanos, bombeiros, entre outros.
Mas meu
objetivo é, antes de falar da doença, falar das escolhas profissionais. A
profissão, de alguma forma, se torna extensão do próprio sujeito e em muitas
vezes é tida como um sobrenome – “fulano, psicólogo”, “ciclano, médico”. Existe
um investimento imenso de tempo, dinheiro, energia e, sobretudo, afeto. Este “sobrenome”
traz consigo uma carga muito pesada de expectativas sobre o sujeito, o que chamamos
de Representação Social, que numa releitura de Moscovici (1978) refere-se ao posicionamento
e localização da consciência subjetiva nos espaços sociais, com o sentido de
constituir percepções por parte dos indivíduos.
É comum que a
tomada de decisão profissional aconteça como um ritual de passagem da adolescência
para a vida adulta. Como se escolher uma profissão representasse a efetivação
da maturidade. Muitos sentimentos estão em jogo neste processo, não só para
quem toma a decisão, mas também para todo o cenário que o levou a tal escolha.
A influência familiar é inegável, aliás, partindo do pressuposto que as
escolhas ocorrem a partir de identificações e, por sua vez, estão implicadas na
forma como vivem as identificações primárias, secundárias e os afetos
decorrentes, é comum que a escolha profissional atenda primeiramente ao desejo
do outro.
Há algum tempo trabalho com avaliação de perfis profissionais e talvez tudo isso que foi
dito sobre as escolhas, justifique parte das incoerências que
encontro nos processos de análise destes perfis. O médico que não gosta de
gente, o psicólogo que não estabelece diálogo, o comunicador que não se
comunica, o palestrante motivacional desmotivado, o professor que não gosta de
dar aulas e blá, blá, blá...
Talvez, antes
de tratar a síndrome de Burnout, seja necessário tratar a “síndrome do
não-vocacionado”. Ainda bem que esta última, é uma patologia repleta de sinais
e sintomas. Caso tenha se auto-diagnosticado, dou uma dica (me apropriando de
uma frase de Sigmund Freud): ser completamente honesto consigo mesmo é uma boa
norma.
(Douglas Duarte)
