quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O saldo negativo de amar literatura infantil é conservar no coração essa minha mania boba de superestimar a capacidade de gratidão das pessoas. Quando faço algo por alguém não espero “coisas” em troca, mas, confesso que sempre espero sentimentos. Talvez o erro não seja dos outros, seja meu. Eu que tenho que deixar de viver no asteróide B612 e encarar o mundo como ele realmente é. Para 2016: não ser movido por emoções. Para o resto dos anos: pensar mais em mim.

(Douglas Duarte)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Resposta ao meu mistério


“Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu mistério.”


(Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”. Página 14)




Perdi bastante tempo procurando a resposta ao meu mistério. Enchi-me de teorias, pessoas, bebidas, opiniões, crenças. Engraçado que cada nova hipótese trazia consigo um alívio, uma sensação de que toda e qualquer dor cessaria através da resposta. Eu achava que a completude estava nisto: quanto menores as dúvidas, maior a proximidade do pleno. Mas comecei a ficar tão cheio, que o efeito foi rebote. Vi-me perdido nas minhas próprias teorias. Passei a sentir falta do vazio. É nele que encontramos quem realmente somos, quando silenciamos a voz do outros e nos atentamos a nossa. O vazio nos permite a leveza. Nossa verdade sobre nós mesmos é leve, só fica pesada quando nos olhamos com os olhos dos outros. O outro não tem as respostas aos nossos mistérios, elas estão no vazio, por isso ele se assemelha ao pleno.

Por Douglas Duarte

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Não era mais verde?


                                                                                                                                                                       Antes de tomar uma decisão, encontre onde está o seu desejo e qual a motivação. Não mude para ser como os outros, até porque, quase sempre, eles não são o que pensamos. 

Por Douglas Duarte



sexta-feira, 17 de julho de 2015

Distração

Quase sempre há um sinal dizendo quando devemos parar ou prosseguir, mas na maioria das vezes estamos (convenientemente) distraídos. Na vida e no trânsito, a maior parte dos acidentes acontecem por distração. A terapia tem um papel importante neste processo de despertar, mas nada como o desejo de enxergar os sinais. Este desejo é parte da cura, aprendi isso na prática, não na faculdade de psicologia ou no trabalho. Se um acidente acontece pela nossa decisão de fechar os olhos diante dos sinais, não somos nós as vítimas...


Por Douglas Duarte 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Balneário Camboriú, 27 de Abril de 2015. Manhã cinzenta, palco de dois suicídios.


Parece que a fragilidade do ser humano aumenta na medida em que o mundo tecnológico e científico se diz evoluir. Está tudo tão estranho...  O que antes era entendido como a última alternativa, hoje é tão comum. Segundo o relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), foram registrados 11.821 suicídios no Brasil entre os anos de 2010 e 2012 (taxa de 6,0 para cada grupo de 100 mil habitantes). De acordo com o Mapa da Violência, Santa Catarina é o segundo estado em número de suicídios,
"O suicídio de de Dorothy Hale", de 1938 (Frida Kahlo). 
perdendo somente para o Rio Grande do Sul. Algo que me intriga, é que são justamente os Estados ditos com maior qualidade de vida do país – e na minha leiga opinião também seriam considerados, consequentemente, lugares com maior “qualidade de morte”. É um contraste incoerente, que muitas vezes se esconde pelo excesso de felicidade estampada por aí nas baladas, condomínios de luxo e colunas sociais.

Qual a relevância do dinheiro no meio disso tudo? E o consumismo, qual sua parcela de culpa?

Há que se considerar que o fenômeno suicídio é multicausal, portanto não podemos explicá-lo por um só fator, mas a sociedade consumista me parece eloquente dentre estes aspectos. Esta geração, de maneira geral, não sabe lidar com concertos. Tudo facilmente vira lixo, tudo é substituível. O diálogo é raro, não temos “tempo” para questionamentos, nem muito menos paciência (leia-se coragem) para enfrentar os conflitos. Se nos desagrada, simplesmente descartamos. O suicídio, em minha opinião, é a repetição deste mesmo comportamento. Num mundo onde tudo acontece imediatamente, é difícil aceitar que um problema não se resolva do dia para a noite, neste caso, a morte é a solução mais fácil.


“O suicídio demonstra que na vida existem males maiores que a morte.”
(Francesco Orestano, filósofo italiano.)





Por Douglas Duarte


quinta-feira, 12 de março de 2015

Alerta: vidros verdes espelhados e cristais austríacos podem causar cegueira






Há poucos dias assisti ao filme “Além da sala de aula” (em algumas traduções “Além do quadro negro”), estrelado pela atriz canadense Emily VanCamp. Trata-se de um drama baseado na história real da professora Stacey Bess, que aceitou a vaga de professora temporária numa escola de abrigo, com sala de aula improvisada para crianças e famílias sem teto, impedidas pelo Estado de se matricularem em escolas regulares por falta de documentação ou vacina. Além da falta de recursos, Bess precisou enfrentar o desafio de superar a frustração profissional de atuar onde há necessidade, não onde se deseja estar. Stacey teve a coragem e a sabedoria de usar o pouco tempo que tinha para fazer a diferença na vida daquelas famílias.

O filme terminou e a sensação era a de estar olhando para as ruínas deixadas pela passagem de um furacão. As emoções desorganizadas, os planos todos fora do lugar, sentimentos dicotômicos, pensamentos e desejos contraditórios.

Já faz oito meses que mudei para Balneário Camboriú e, como se sabe, o lugar é incrível, objeto de desejo de muita gente. A cidade se tornou um lugar de extremo glamour, povoado predominantemente por pessoas de alta renda. Assisto diariamente ao desfile de carros de luxo e egos inflados. Os eventos sociais também são muito intensos, recebo convites para festas quase todos os dias.

Ao mesmo tempo em que sinto um prazer imenso em estar inserido neste meio, tomo muito cuidado para que os vidros verdes espelhados dos arranha-céus ou os cristais austríacos dos lustres das mansões não ofusquem minha visão.

Não é uma apologia a simplicidade, muito menos um movimento anti-capitalista, mas também não podemos ignorar o fato de que somos suscetíveis a tragédia de se perder no meio do caminho e esquecer o que propusemos a fazer de nossas vidas.

Eu trabalho muito para usufruir o melhor do que o mundo tem a oferecer, mas também não posso permitir que isto me afaste da escolha que fiz de cuidar das pessoas. O consultório impecável com piso de mármore travertino, enfeites de murano e obras de arte na parede continua sendo um sonho, mas não vou permitir que isso me faça ignorar a fatia do mundo esquecida pela maior parte das pessoas. Ainda tem muita gente precisando de ajuda, dos mais pobres que não tem onde morar, aos miseráveis que moram em apartamentos de luxo com vista para o mar.


Desculpem, foi apenas um desabafo.


Por Douglas Duarte



Assista online o filme dublado  ou faça o download dele legendado

sexta-feira, 6 de março de 2015

Identidade de gênero e sexualidade



Confesso que ainda é indigesto o que tenho lido sobre o tema, não por resistência ou discordância, mas por ainda estar assustado com tamanha complexidade e influência do tema em todas as áreas que envolvam o ser humano. Ainda não me atrevo a opinar, esta é apenas uma compreensão teórica (provavelmente a primeira de várias) sobre o estupendo texto da Antropóloga Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi, no qual recomendo a leitura, em especial aos colegas da Psicologia.
 Leia na íntegra: clique aqui 



Num tom provocativo, Miriam Grossi traz além da contextualização histórica dos papéis e representações sociais do homem, as lutas libertárias e estudos sobre a condição feminina, um conglomerado de conceitos que aprofundam e desconstroem parte do que se sabe no senso comum sobre o termo gênero. Ela nos apresenta o trajeto e evolução dos estudos de gênero, desde sua chegada através das pesquisadoras norte-americanas, até as discussões contemporâneas sobre o significado, papéis e identidade de gênero, além de discutir a relevância destes todos na sexualidade e reprodução.

De maneira sucinta, Grossi traz como função do gênero determinar tudo o que é social, cultural e historicamente determinado, complementando com o que diz Joan Scott sobre não remeter somente a idéias, mas também as instituições, estruturas, práticas cotidianas e tudo o que constitui as relações sociais. Há que se considerar que o gênero também é composto pela atuação de determinados papéis, ou seja, a representação de um personagem associado ao sexo biológico (macho ou fêmea) numa determinada cultura pode ser considerado papel de gênero. Nesta perspectiva, estes papéis não são biologicamente determinados, portanto, mutáveis culturalmente e historicamente.

Além dos papéis, é levantada a questão da identidade de gênero, na qual Robert Stoller defende que todo indivíduo tem um núcleo de identidade de gênero formado por um conjunto de convicções a partir do que é considerado socialmente masculino ou feminino, impregnado psiquicamente, segundo a psicanálise, até os três anos de idade, depois de superado o complexo de Édipo. Isso talvez justifique (ou pelo menos explique) a patologização ou o julgamento de anormalidade ou perversão da homossexualidade no imaginário ocidental, já que a prática da heterossexualidade é considerada “instintiva” na espécie humana pela possibilidade de perpetuação da espécie através da reprodução. Entretanto, Grossi aponta discussões recentes a respeito da reprodução biológica com pessoas do mesmo sexo, sugerindo a hipótese de que a heterossexualidade não será necessária para a reprodução, muito menos obrigatória.

Miriam também nos lembra, que assim como se discute a reprodução homossexual, discutiu-se noutra época o prazer feminino percebido como perigoso ou patológico, ou a passividade e frigidez como comportamentos normais e esperados, o que só corrobora a tese de que o gênero, entendido como apresentado anteriormente, não é algo estático, ou cristalizado, mas mutável, influenciado pelo contexto sócio-histórico. 


Por Law Tissot. Cidade Cyber 2012 - Parte I #5



Por Douglas Duarte