Há
poucos dias assisti ao filme “Além da sala de aula” (em algumas traduções “Além
do quadro negro”), estrelado pela atriz canadense Emily VanCamp. Trata-se de
um drama baseado na história real da professora Stacey Bess, que aceitou a vaga
de professora temporária numa escola de abrigo, com sala de aula improvisada
para crianças e famílias sem teto, impedidas pelo Estado de se matricularem em
escolas regulares por falta de documentação ou vacina. Além da falta de recursos,
Bess precisou enfrentar o desafio de superar a frustração profissional de atuar
onde há necessidade, não onde se deseja estar. Stacey teve a coragem e a
sabedoria de usar o pouco tempo que tinha para fazer a diferença na vida
daquelas famílias.
O
filme terminou e a sensação era a de estar olhando para as ruínas deixadas pela
passagem de um furacão. As emoções desorganizadas, os planos todos fora do
lugar, sentimentos dicotômicos, pensamentos e desejos contraditórios.
Já
faz oito meses que mudei para Balneário Camboriú e, como se sabe, o lugar é
incrível, objeto de desejo de muita gente. A cidade se tornou um lugar de
extremo glamour, povoado predominantemente por pessoas de alta renda. Assisto
diariamente ao desfile de carros de luxo e egos inflados. Os eventos sociais
também são muito intensos, recebo convites para festas quase todos os dias.
Ao
mesmo tempo em que sinto um prazer imenso em estar inserido neste meio, tomo
muito cuidado para que os vidros verdes espelhados dos arranha-céus ou os
cristais austríacos dos lustres das mansões não ofusquem minha visão.
Não
é uma apologia a simplicidade, muito menos um movimento anti-capitalista, mas também não podemos ignorar o fato de que
somos suscetíveis a tragédia de se perder no meio do caminho e esquecer o que
propusemos a fazer de nossas vidas.
Eu
trabalho muito para usufruir o melhor do que o mundo tem a oferecer, mas também
não posso permitir que isto me afaste da escolha que fiz de cuidar das pessoas.
O consultório impecável com piso de mármore travertino, enfeites de murano e
obras de arte na parede continua sendo um sonho, mas não vou permitir que isso
me faça ignorar a fatia do mundo esquecida pela maior parte das pessoas. Ainda
tem muita gente precisando de ajuda, dos mais pobres que não tem onde morar,
aos miseráveis que moram em apartamentos de luxo com vista para o mar.
Desculpem,
foi apenas um desabafo.
Por Douglas Duarte

