quinta-feira, 12 de março de 2015

Alerta: vidros verdes espelhados e cristais austríacos podem causar cegueira






Há poucos dias assisti ao filme “Além da sala de aula” (em algumas traduções “Além do quadro negro”), estrelado pela atriz canadense Emily VanCamp. Trata-se de um drama baseado na história real da professora Stacey Bess, que aceitou a vaga de professora temporária numa escola de abrigo, com sala de aula improvisada para crianças e famílias sem teto, impedidas pelo Estado de se matricularem em escolas regulares por falta de documentação ou vacina. Além da falta de recursos, Bess precisou enfrentar o desafio de superar a frustração profissional de atuar onde há necessidade, não onde se deseja estar. Stacey teve a coragem e a sabedoria de usar o pouco tempo que tinha para fazer a diferença na vida daquelas famílias.

O filme terminou e a sensação era a de estar olhando para as ruínas deixadas pela passagem de um furacão. As emoções desorganizadas, os planos todos fora do lugar, sentimentos dicotômicos, pensamentos e desejos contraditórios.

Já faz oito meses que mudei para Balneário Camboriú e, como se sabe, o lugar é incrível, objeto de desejo de muita gente. A cidade se tornou um lugar de extremo glamour, povoado predominantemente por pessoas de alta renda. Assisto diariamente ao desfile de carros de luxo e egos inflados. Os eventos sociais também são muito intensos, recebo convites para festas quase todos os dias.

Ao mesmo tempo em que sinto um prazer imenso em estar inserido neste meio, tomo muito cuidado para que os vidros verdes espelhados dos arranha-céus ou os cristais austríacos dos lustres das mansões não ofusquem minha visão.

Não é uma apologia a simplicidade, muito menos um movimento anti-capitalista, mas também não podemos ignorar o fato de que somos suscetíveis a tragédia de se perder no meio do caminho e esquecer o que propusemos a fazer de nossas vidas.

Eu trabalho muito para usufruir o melhor do que o mundo tem a oferecer, mas também não posso permitir que isto me afaste da escolha que fiz de cuidar das pessoas. O consultório impecável com piso de mármore travertino, enfeites de murano e obras de arte na parede continua sendo um sonho, mas não vou permitir que isso me faça ignorar a fatia do mundo esquecida pela maior parte das pessoas. Ainda tem muita gente precisando de ajuda, dos mais pobres que não tem onde morar, aos miseráveis que moram em apartamentos de luxo com vista para o mar.


Desculpem, foi apenas um desabafo.


Por Douglas Duarte



Assista online o filme dublado  ou faça o download dele legendado

sexta-feira, 6 de março de 2015

Identidade de gênero e sexualidade



Confesso que ainda é indigesto o que tenho lido sobre o tema, não por resistência ou discordância, mas por ainda estar assustado com tamanha complexidade e influência do tema em todas as áreas que envolvam o ser humano. Ainda não me atrevo a opinar, esta é apenas uma compreensão teórica (provavelmente a primeira de várias) sobre o estupendo texto da Antropóloga Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi, no qual recomendo a leitura, em especial aos colegas da Psicologia.
 Leia na íntegra: clique aqui 



Num tom provocativo, Miriam Grossi traz além da contextualização histórica dos papéis e representações sociais do homem, as lutas libertárias e estudos sobre a condição feminina, um conglomerado de conceitos que aprofundam e desconstroem parte do que se sabe no senso comum sobre o termo gênero. Ela nos apresenta o trajeto e evolução dos estudos de gênero, desde sua chegada através das pesquisadoras norte-americanas, até as discussões contemporâneas sobre o significado, papéis e identidade de gênero, além de discutir a relevância destes todos na sexualidade e reprodução.

De maneira sucinta, Grossi traz como função do gênero determinar tudo o que é social, cultural e historicamente determinado, complementando com o que diz Joan Scott sobre não remeter somente a idéias, mas também as instituições, estruturas, práticas cotidianas e tudo o que constitui as relações sociais. Há que se considerar que o gênero também é composto pela atuação de determinados papéis, ou seja, a representação de um personagem associado ao sexo biológico (macho ou fêmea) numa determinada cultura pode ser considerado papel de gênero. Nesta perspectiva, estes papéis não são biologicamente determinados, portanto, mutáveis culturalmente e historicamente.

Além dos papéis, é levantada a questão da identidade de gênero, na qual Robert Stoller defende que todo indivíduo tem um núcleo de identidade de gênero formado por um conjunto de convicções a partir do que é considerado socialmente masculino ou feminino, impregnado psiquicamente, segundo a psicanálise, até os três anos de idade, depois de superado o complexo de Édipo. Isso talvez justifique (ou pelo menos explique) a patologização ou o julgamento de anormalidade ou perversão da homossexualidade no imaginário ocidental, já que a prática da heterossexualidade é considerada “instintiva” na espécie humana pela possibilidade de perpetuação da espécie através da reprodução. Entretanto, Grossi aponta discussões recentes a respeito da reprodução biológica com pessoas do mesmo sexo, sugerindo a hipótese de que a heterossexualidade não será necessária para a reprodução, muito menos obrigatória.

Miriam também nos lembra, que assim como se discute a reprodução homossexual, discutiu-se noutra época o prazer feminino percebido como perigoso ou patológico, ou a passividade e frigidez como comportamentos normais e esperados, o que só corrobora a tese de que o gênero, entendido como apresentado anteriormente, não é algo estático, ou cristalizado, mas mutável, influenciado pelo contexto sócio-histórico. 


Por Law Tissot. Cidade Cyber 2012 - Parte I #5



Por Douglas Duarte