terça-feira, 28 de outubro de 2014

Gestão de Ausências

O médico perguntou:
- O que sentes?

E eu respondo:
- Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.

(Caio F. Abreu)


Um diagnóstico tem a função de recolher e analisar dados para avaliar a natureza do problema. Em saúde, observam-se os sinais e sintomas e, de acordo com estes, qualifica-se a doença. Para definir o planejamento do tratamento é necessário que a anamnese seja profunda e o diagnóstico muito criterioso.

O processo é o mesmo quando se propõe um projeto consultivo. Ouvimos, observamos, sentimos, às vezes solicitamos alguns exames, discutimos o caso, qualificamos a “doença” e planejamos o tratamento.

Sabe aquela consulta médica rápida, daquelas que você vai embora sem a menor idéia do que serviu de base para o profissional dar o diagnóstico? Às vezes isso também acontece com o consultor. Apesar de toda nossa preocupação em não rotular e respeitar a singularidade dos sujeitos é comum que nosso “olhar clínico” identifique facilmente algumas “doenças”.

Não sei se já posso considerar epidemia, mas estou assustado com a incidência de LONJURAS que tenho visto nestas minhas andanças corporativas.

Engraçado que quanto maior a possibilidade de aproximação, maiores são as distâncias. Quantas vezes fui contratado para ser porta-voz de um “líder” que não sabe como corrigir o liderado; não tão raro sou contratado para legitimar o que chefe –  “contaminado pela lonjura” – não conseguiu transmitir à equipe. Quantas e quantas vezes um consultor é contratado para dizer à equipe o quanto ela é importante, simplesmente porque existe um abismo entre o gestor e seus colaboradores que impede que um mero elogio seja dito.

Vivemos numa época em que o peso recai sobre o êxito individual. Cada vez mais percebemos que as lonjuras são estabelecidas porque somos obrigados a defender veementemente interesses individuais, já que, se não o fizermos, nos depararemos com a dor de ver o outro como mais bem-sucedido que nós.




“As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes."

(Antoine Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”)




Por Douglas Duarte



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Entre a tragédia e a essência



Professora de natação formada em Educação Física pela UFMS, Ellen Duarte adora ler romances, ficções, livros cristãos e ouvir Elvis Presley.  Rubem Alves disse a respeito dos guerreiros ternos, que endurecem sem perder a ternura, e eu a vejo exatamente assim - contraste entre a força e a doçura. Além de prima é uma grande amiga que se faz presente em todos os momentos da minha vida. Determinada, num futuro próximo será minha colega de profissão.






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Entre a tragédia e a essência



Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê...


Recentemente, em meio a uma conversa corriqueira, um amigo disse que a tragédia humana me atraia. Confesso que até aquele momento isso não me era consciente, mas hoje admito: ele tem razão. A dor, o sofrimento, a tragédia das más relações humanas... isso certamente me atrai.

Atraio-me pela tragédia por acreditar que é possível ameniza-la, me atraio pelos feridos porque acredito numa humaninade solidária e amável; ainda deve haver no mundo seres humanos que amem ao próximo e estejam dispostos a ajudá-lo.

É, esses seres humanos devem existir....

Mas eu me atraio pela dor, lembra? Pois bem, o que te posso dizer é que as más relações interpessoais estão se sobressaindo cada dia mais; você conhece o termo violência doméstica? No Brasil a violência que mais acomete mulheres, crianças e adolescente, ocorre dentro dos lares (DAY et al, 2003), e a violência nas relações de casais é tamanha que já é aceita como endêmica (BRASIL, 2011).

Você sabia?

No Brasil, a cada dia são reportados ao disque denuncia (100), cerca de 129 casos de violência, isto é, a cada hora cinco casos contra meninos e meninas são registrados no país (UNICEF); também a cada uma hora morre uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais (FUNDAÇÃO ABRINQ).

Existe ainda uma classificação consideravelmente nova que é a violência intergeracional, de acordo com estudos, as crianças que hoje são vitimas — diretas ou indiretas — de violência doméstica, tendem a se transformar nos adultos agressores/violentadores de amanhã (GOMES et al 2007; AGUIAR, 2013; MATOSO et al 2014;  RANGEL et al, 2011).

E então... Diante disto, aquela frase clichê assume um peso diferente: violência gera violência (sim).

Meu sonho é que conhecendo a tragédia humana, possamos nos dedicar a amenizar a dor dos que sofrem, e ajudá-los a quebrar esse triste ciclo chamado violência. A tomada de consciência a respeito da tragédia destas relações humanas pode ser o despertar do ser humano solidário e amável que Deus te criou pra ser.


... e eu sei que você sabe — quase sem querer — que eu vejo o mesmo que você.



Por Ellen Duarte.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Vínculos débeis no mercado das emoções


Revolució, Oil on Canvas. Por Guilherme Kramer.



Em meados do século XVIII, na Inglaterra, emergiram-se diversas transformações de ordem econômica, política e social, que se convencionou chamar de Revolução Industrial. No Brasil, o processo de industrialização teve seu ponto de partida por volta da década de 80 do século passado, essencialmente motivado pela crise e abolição do trabalho escravo. Formou-se, com o trabalho livre assalariado, um mercado passivo que era preciso abastecer.

Este processo gerou não somente um novo modelo econômico, mas também uma nova forma de olhar o mundo. A insaciabilidade é uma das características da sociedade de consumo que mais gerou impacto, atingindo, inclusive, as relações sociais e o processo de constituição da própria identidade. 

Os relacionamentos atuais estão cada vez mais fragilizados e comumente tratados como mercadoria. Pode-se notar o estabelecimento de uma nova ética onde os conceitos mais nobres foram ressignificados. A debilidade dos vínculos afetivos pode ser diretamente comparada à relação que temos com os objetos. Os produtos não são mais feitos para durar, da mesma forma as relações.


Sobre este tema, recomendo a leitura do livro AMOR LÍQUIDO, de Zygmunt Bauman.


Toda essa análise me despertou o interesse de investigar elementos um pouco mais profundos do processo de estabelecimento do vínculo. A identificação é a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa, além de desempenhar um papel importante na história primitiva do complexo de Édipo - “Um menino mostrará um interesse especial pelo pai; gostaria de crescer como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente dizer que toma o pai como seu ideal.” (FREUD, 1921, p.133). Posterior a esta identificação, Freud diz a respeito da idealização que se dá na presença do amor, que tende a falsificar o julgamento a respeito do outro, visto que, quando estamos amando, há uma quantidade considerável de libido narcisista. Ou seja, a forma como se trata o outro, revela diretamente a relação que se tem consigo mesmo. 

A fragilidade das relações revela, dentre muitas coisas, a vulnerabilidade dos seres humanos no processo do autoconceito, e este é fundamental para manter o ajuste do sujeito com o mundo exterior. Na abordagem humanista, por meio da interação social o indivíduo repele imagens de si mesmo, inclusive as que lhe causam dúvidas em relação à sua própria competência e seu próprio valor. Partindo deste pressuposto, o investimento de tempo e afeto numa relação pode associar-se ao desejo de estar consigo mesmo ou, da mesma forma, o contrário, a aversão da própria companhia. Se eu me vejo no outro, o saber “quem sou” me permite definir “com quem quero estar”, sendo assim, a busca insaciável pelo alguém ideal pode ocultar a insatisfação de não ser o alguém ideal, e esta nos obriga a dar voltas que não conduzem a outro lugar que não ao ponto de partida.

(Douglas Duarte)

sábado, 11 de outubro de 2014

O amor não vai embora

Ju Souc é cantora, compositora e baterista premiada no Festival Batuka Brasil. Além da carreira solo, é integrante das bandas Zé Pretim Trio, Pétalas de Pixe e Santo Chico. 

"O acaso", de sua autoria, é trilha sonora do site da Reddo desde março deste ano. Sou assumidamente apaixonado por seu trabalho!

Dona de um talento absurdo e carisma na mesma proporção, Ju Souc lançou recentemente o clipe "O amor não vai embora", com participação de Jerry Espíndola. Nem preciso dizer que esbanja musicalidade e bom gosto! Poesia pura!






quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mais Popeye e menos Exupéry



Ana Clara Tissot é uma grande amiga e a primeira convidada a escrever para o blog. Ela trabalhou em muitas empresas bacanas como executiva (na área de T.I, em banco, lecionou idiomas e literatura, gerenciou departamentos de marketing e é conferencista na área de desenvolvimento humano) e estudou um montão de coisas relacionadas a publicidade, comunicação, linguística e produção textual. Ela também é minha sócia na Reddo Engenharia Humana, uma empresa que cuida da carreira de pessoas,  atuando como Coach e treinadora motivacional.




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Mais Popeye e menos Exupéry


Durante os vintes anos em que atuo com gestão de pessoas já-vi-de-um-tudo: unicórnios executivos existentes apenas no imaginário corporativo, dízimo instituído para expurgar os pecados da gestão e políticas de massacre que se escondem atrás de discursos bonitinhos.

Já tomei muito sal de fruta pra digerir reuniões cujo único objetivo era legitimar alguns egos e exterminar outros tantos. Nos últimos dias tenho pensado muito... Talvez seja a sombra que os 40 anos tenha trazido pro sol das minhas ilusões.... Sempre fui muito Pollyanna e achava que minha salvação era a ilha dos meus pensamentos organizacionais, sempre tão retilíneos.

Mas não.

Me consome diariamente este festival apocalíptico ao qual dei o nome de "incapacidade de autoescuta" - e quem sabe um dia veja esta patologia inscrita formalmente no rol do CID 10.

Talvez.

Já não suporto a ideia equivocada de que o nascedouro da comunicação se dá no processo de escuta do outro. A escuta, para mim, é sobretudo OUVIR-SE. O conceito de alteridades nos empurrou para a morbidez de existir em função de um outro indivíduo. Mas quem eu sou? Do que eu gosto? O que me inspira? O que limita a minha existência? O que? O que, afinal?

Estaríamos vivendo uma nova era psíquica, em que a instância "do que sou" parte somente do crivo do "que sou para o fulano?". Eu sinceramente não sei mais...

O Exupéry ferrou a nossa culpa cristã ao eternizar a máxima de "que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos." Sonho com o dia em que sejamos responsáveis por sermos aquilo que somos em essência, conectados não por responsabilidade imputada, mas por elos inquebrantáveis de identificação, empatia, solidariedade e completude.

Não quero mais me reconhecer a partir do espelho que alguém tráz nas mãos. Nem na vida empresarial. E não quero ser responsável por nenhum afeto, e sim herdeira natural das coisas bacanas que plantei por aí....

"Eu sou o que sou. E isso é tudo o que sou."  -  Disse o marinheiro Popeye.




Por Ana Clara Tissot.








sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A somatização da escolha

Aquarela, de Bruno Porato.

Estes dias li uma matéria cujo título me chamou muita atenção: a frustração profissional adoece. A matéria falava a respeito da Síndrome de Burnout, que é um distúrbio psíquico descrito em 1974 por Freudenberger, um médico americano.

A síndrome é caracterizada pelo estado de tensão emocional e estresse, crônicos e provocados por condições de trabalho físicas, emocionais e psicológicas desgastantes. Ela se manifesta, comumente, em pessoas cuja profissão exige envolvimento direto e intenso de questões interpessoais, como é o caso de profissionais da saúde, educação, recursos humanos, bombeiros, entre outros.

Mas meu objetivo é, antes de falar da doença, falar das escolhas profissionais. A profissão, de alguma forma, se torna extensão do próprio sujeito e em muitas vezes é tida como um sobrenome – “fulano, psicólogo”, “ciclano, médico”. Existe um investimento imenso de tempo, dinheiro, energia e, sobretudo, afeto. Este “sobrenome” traz consigo uma carga muito pesada de expectativas sobre o sujeito, o que chamamos de Representação Social, que numa releitura de Moscovici (1978) refere-se ao posicionamento e localização da consciência subjetiva nos espaços sociais, com o sentido de constituir percepções por parte dos indivíduos.

É comum que a tomada de decisão profissional aconteça como um ritual de passagem da adolescência para a vida adulta. Como se escolher uma profissão representasse a efetivação da maturidade. Muitos sentimentos estão em jogo neste processo, não só para quem toma a decisão, mas também para todo o cenário que o levou a tal escolha. A influência familiar é inegável, aliás, partindo do pressuposto que as escolhas ocorrem a partir de identificações e, por sua vez, estão implicadas na forma como vivem as identificações primárias, secundárias e os afetos decorrentes, é comum que a escolha profissional atenda primeiramente ao desejo do outro.

Há algum tempo trabalho com avaliação de perfis profissionais e talvez tudo isso que foi dito sobre as escolhas, justifique parte das incoerências que encontro nos processos de análise destes perfis. O médico que não gosta de gente, o psicólogo que não estabelece diálogo, o comunicador que não se comunica, o palestrante motivacional desmotivado, o professor que não gosta de dar aulas e blá, blá, blá...

Talvez, antes de tratar a síndrome de Burnout, seja necessário tratar a “síndrome do não-vocacionado”. Ainda bem que esta última, é uma patologia repleta de sinais e sintomas. Caso tenha se auto-diagnosticado, dou uma dica (me apropriando de uma frase de Sigmund Freud): ser completamente honesto consigo mesmo é uma boa norma.   


(Douglas Duarte)