quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Mais Popeye e menos Exupéry



Ana Clara Tissot é uma grande amiga e a primeira convidada a escrever para o blog. Ela trabalhou em muitas empresas bacanas como executiva (na área de T.I, em banco, lecionou idiomas e literatura, gerenciou departamentos de marketing e é conferencista na área de desenvolvimento humano) e estudou um montão de coisas relacionadas a publicidade, comunicação, linguística e produção textual. Ela também é minha sócia na Reddo Engenharia Humana, uma empresa que cuida da carreira de pessoas,  atuando como Coach e treinadora motivacional.




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Mais Popeye e menos Exupéry


Durante os vintes anos em que atuo com gestão de pessoas já-vi-de-um-tudo: unicórnios executivos existentes apenas no imaginário corporativo, dízimo instituído para expurgar os pecados da gestão e políticas de massacre que se escondem atrás de discursos bonitinhos.

Já tomei muito sal de fruta pra digerir reuniões cujo único objetivo era legitimar alguns egos e exterminar outros tantos. Nos últimos dias tenho pensado muito... Talvez seja a sombra que os 40 anos tenha trazido pro sol das minhas ilusões.... Sempre fui muito Pollyanna e achava que minha salvação era a ilha dos meus pensamentos organizacionais, sempre tão retilíneos.

Mas não.

Me consome diariamente este festival apocalíptico ao qual dei o nome de "incapacidade de autoescuta" - e quem sabe um dia veja esta patologia inscrita formalmente no rol do CID 10.

Talvez.

Já não suporto a ideia equivocada de que o nascedouro da comunicação se dá no processo de escuta do outro. A escuta, para mim, é sobretudo OUVIR-SE. O conceito de alteridades nos empurrou para a morbidez de existir em função de um outro indivíduo. Mas quem eu sou? Do que eu gosto? O que me inspira? O que limita a minha existência? O que? O que, afinal?

Estaríamos vivendo uma nova era psíquica, em que a instância "do que sou" parte somente do crivo do "que sou para o fulano?". Eu sinceramente não sei mais...

O Exupéry ferrou a nossa culpa cristã ao eternizar a máxima de "que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos." Sonho com o dia em que sejamos responsáveis por sermos aquilo que somos em essência, conectados não por responsabilidade imputada, mas por elos inquebrantáveis de identificação, empatia, solidariedade e completude.

Não quero mais me reconhecer a partir do espelho que alguém tráz nas mãos. Nem na vida empresarial. E não quero ser responsável por nenhum afeto, e sim herdeira natural das coisas bacanas que plantei por aí....

"Eu sou o que sou. E isso é tudo o que sou."  -  Disse o marinheiro Popeye.




Por Ana Clara Tissot.